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Artesanato: mundo digital é o novo normal

Capaz de contar a história e representar seu povo, o artesanato é talvez, uma das cadeias produtivas mais antigas e também mais frágeis diante do caos trazido pela pandemia.

Atividade, geralmente, desenvolvida por mãos habilidosas e tradicionais tem na sua experiência de consumo um ritual único, sensorial, que inclui a escuta e o encantamento e não costuma ser dada a impulsos e imediatismos.

O tão falado “novo normal” digital e socialmente distante desafia o setor que faz parte da cadeia produtiva da economia criativa. Por vezes ignorado por muitos em sua potência econômica, o artesanato mostra sua força ao ter uma diretoria exclusiva dentro da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico (Sede).

Capaz de enraizar técnicas, história e, principalmente, pessoas em seus locais de origem, contribui para o desenvolvimento das regiões e para minimizar o êxodo em direção às grandes cidades, garantindo, assim, uma melhor qualidade de vida em todo o Estado.

Sites, redes sociais e marketplaces seriam capazes de substituir a conversa com a senhorinha daquela loja que você descobriu na cidade histórica? E como chegar aos lojistas sem as grandes feiras? A volta das pessoas às ruas, pode levar a um surto de consumo? Terá a cultura do álcool em gel se entranhado nos ateliês? São muitas as perguntas.

Se há algo de bom no cenário do Covid-19, podemos destacar a revalorização da arte e da produção local. Com mais tempo em casa, em um contexto de insegurança e medo, muita gente se voltou para as expressões artísticas em busca de beleza, conforto e saúde mental.

Se no “novo normal” vamos unir tecnologia e tradição, ainda não sabemos, mas o certo é que a beleza e a história terão sempre o seu espaço e sua expressão mais próxima – o artesanato –, certamente, encontrará seu lugar.

 

CANAIS DE ENCONTRO ENTRE ARTESÃOS E CONSUMIDORES AINDA SÃO FALHOS

Segundo uma das definições do dicionário, artesanato é “arte e técnica do trabalho manual não industrializado, realizado por artesão, e que escapa à produção em série; tem finalidade a um tempo utilitária e artística”.

Mais do que isso, é também a expressão da história e da alma de um povo e, por isso mesmo, um bem que pode alcançar um alto valor agregado a depender não apenas desses atributos, mas também da sua capacidade de chegar a um mercado consumidor ávido por originalidade e procedência.

Para o diretor de Artesanato da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico (Sede), Thiago Tomaz de Souza Chaveiro, a comercialização é o ponto crítico dessa relação. De um lado estão os artesãos e seus produtos e, de outro, os consumidores, porém os canais que poderiam promover esse encontro ainda são falhos.

“Dos segmentos da economia criativa, o artesanato foi dos primeiros a sentir e, provavelmente, será o último a se restabelecer dessa crise. Nesse momento focamos nas ações emergenciais, mas é preciso já estabelecer estratégias para um futuro que já começou. Para o artesanato tudo que existia permanecerá. O artesanato, por mais que haja globalização, vai continuar existindo. De outro lado, por mais que muitos tenham dificuldade com o mundo digital, outros se adaptaram. Viram que isso também é uma oportunidade de negócio. O novo normal vai prevalecer juntando outras oportunidades, especialmente as funcionalidades do mundo digital”, afirma Chaveiro.

Para o gestor público, grandes crises costumam ter como uma de suas consequências a valorização da cultura regional. Ao mesmo tempo, campanhas de valorização do comércio local também apoiam os artesãos que ganham um novo público local para substituir os turistas.

“Ao longo do processo de políticas públicas do governo, o artesanato se estabeleceu na Sede, muito relacionado com uma visão de empreendedorismo e sustentabilidade, unindo economia e identidade cultural. Isso é fundamental e razão pela qual a nossa interlocução com a Secult (Secretaria de Estado de Cultura e Turismo)”, pontua o diretor de Artesanato da Sede.

É também apostando em um modelo híbrido de consumo, que a presidente do Instituto Centro Cape, Tânia Machado, segue apoiando não apenas os associados da instituição. Responsável pela organização da Feira Nacional de Artesanato (FNA), marcada para a primeira semana de dezembro, no Expominas, na região Oeste da Capital, ela já prepara um evento presencial e virtual ao mesmo tempo, mas se depara com a parca presença dos artesãos no mundo digital.

Para tentar ajudar, o Instituto lançou uma plataforma para facilitar o encontro entre o consumidor e o artesão mais próximo através de uma ferramenta de georreferenciamento. Basta que o comprador coloque o seu CEP na plataforma maosdeminas.org.br/artesao e aplique o filtro que desejar como segmento, produto ou matéria-prima, por exemplo. A partir daí, é só entrar em contato.

“Você raramente sai de casa com o intuito de comprar um artesanato. Normalmente você está passeando, se encanta por uma peça e compra para si ou para dar de presente. Ao mesmo tempo a grande maioria dos artesãos são pequenos empreendedores ou trabalhadores informais e nessa época em que as pessoas não podem sair e com os comércios fechados, eles perderam praticamente toda a renda. A única saída nesse momento é tentar tocar as vendas pela internet, mas a maioria não tem familiaridade com a tecnologia, por isso criamos a plataforma”, explica Tânia Machado.

Gestão – A inexperiência digital se revela em itens básicos para quem lida cotidianamente com a tecnologia, como a inexistência de um contato via Whatsapp ou fotos de boa qualidade para as redes sociais.

De acordo com a consultora e responsável pelo artesanato do Sebrae Minas, Amanda Guimarães, outro ponto fraco do segmento é a própria gestão. Para vender pela internet é preciso ter precificação e apresentação corretas. Isso envolve desde uma fotografia com qualidade até e logística.

“Temos orientado a fortalecer a postura empreendedora, reforçando boas práticas de gestão. Controlar receitas, despesas, no que puder reduzir de custos, planejar a longo prazo, negociar com o fornecedor. Tentar encontrar alternativa para fazer o estoque virar caixa. O artesão deve buscar o cliente se fazer presente. Mais que nunca, agora que estamos impossibilitados de nos encontrar, é preciso estar presente, buscando soluções inovadoras. As pessoas se conectam muito com a história do artesão, então ele tem que gravar um vídeo, contar sua história no Instagram. A logística é muito importante, não adianta vender e não ter como entregar. Não precisa ser um site, pode ser pelo Whatsapp. Hoje tem muita ferramenta gratuita. Uma coisa que tem dado certo é fazendo parceria com outros empreendedores. São profissionais criativos e é hora de romper barreiras”, ensina Amanda Guimarães.


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